saúde mental e a pandemia

A saúde mental e a pandemia

A pandemia do COVID-19 testou todas as nossas habilidades. Precisamos reinventar formas de estudar, divertir, conversar, fazer compras e se informar. Muitas coisas que fazíamos de determinada maneira antes se modificou permanentemente, como reuniões de trabalho, pesquisas escolares entre outras coisas.

Tivemos que mostrar flexibilidade, capacidade de adaptação, criatividade. Fomos postos à prova todos os dias. Entretanto, nada foi mais testado em nós que a nossa saúde psíquica. Muito mais que nosso sistema imunológico e nosso estado nutricional, foi nossa capacidade mental de se adaptar por longo tempo a uma mudança mundial que se tornará permanente, expondo nossas fragilidades, medos e inseguranças que precisou atuar.

Nossa saúde mental foi e está sendo posto ao limite hoje um ano após o início da pandemia. Nem a chegada das tão sonhadas vacinas trará aquilo que deixamos para trás no dia 31 de dezembro de 2019. Cada vez mais sabemos que a vida nunca mais será a mesma, porque mudamos muito em pouco tempo e todos ao mesmo tempo.

Nunca antes na história da raça humana tivemos uma experiência coletiva que mostrou o quanto somos frágeis e vulneráveis, muito mais que qualquer outro ser vivo no planeta. E foi o nosso aparelho psíquico que sofreu o maior impacto. Estamos mais em contato com nossas questões internas pela forçosa necessidade de ficar em casa e parado muitas vezes pensando em como lidar com o tsunami que se aproximava.

Hoje não podemos mais esconder de nós mesmos o quanto temos limites emocionais, por mais desafios que já tenhamos enfrentado ao longo da vida. Não podemos lidar com tudo o que acontece em nós e já não podemos negar aquilo que não damos conta. Sabemos hoje com certeza que por mais ricos, inteligentes e fortes que sejamos, não somos nada diante da fragilidade da vida.

O estado emocional sofreu abalos constantes como uma rocha que recebe permanentes golpes do mar revolto e que se parte em dado momento. A clínica psiquiátrica viu crescer ainda mais os já altos níveis de depressão e ansiedade na população. O abuso de álcool e outras substâncias também tiveram lugar para tentar aliviar as tensões contínuas da insegurança gerada pelos caos emocional dentro e fora de cada um de nós.

Entretanto, esse processo tão doloroso serviu para que, ao entrarmos em contato com nosso mundo interno, pudéssemos ressignificar nossas escolhas e perceber a finitude da vida.

Antes vivíamos como se fossemos eternos, que somente os velhos morreriam, e como a velhice estava distante, não haveria com o que se preocupar. Essa era uma grande falácia, pois nunca tivemos certeza de que envelheceríamos e principalmente se seria com saúde física ou mental. Hoje sabemos dessa verdade.

Poder lidar de perto com esse aspecto da fragilidade e efemeridade da vida e do estado humano pode nos trazer lições muito importantes. A primeira delas é que não devemos adiar planos como se fôssemos viver eternamente, evitando falar sobre a morte, pois ela é uma realidade desde que nascemos. Pensando em que não devemos adiar planos e projetos como se fôssemos eternos, também aprendemos que precisamos fazer coisas úteis e importantes para o mundo, pois isso traz sentido a esse pouco tempo de passagem que temos por aqui.

Outro importante ensinamento que a pandemia nos trouxe foi que precisamos cuidar da nossa saúde. Mas não de uma maneira neurótica, preocupando-se apenas com alguns aspectos, mas com uma saúde global que envolve as diferentes dimensões. E aqui fica evidente o quanto é importante ter a saúde mental em dia, cuidando de pontos que normalmente negligenciamos como a busca do equilíbrio, conhecer nossos limites, encerrar processos tóxicos e sempre ter em mente projetos de vida.

Ao se contaminarem pelo vírus da COVID-19 muitas pessoas perceberam o quanto era importante o estado emocional não só para viver o momento, mas também para conseguir lidar com toda incerteza que aquela infecção lhe proporcionava. O isolamento total no momento da infecção ativa testou até o limite a possibilidade de suportar a solidão e o medo.

De uma hora para a outra pessoas que sempre se consideravam equilibradas e sensatas se perceberam frágeis. Conheceram um lado de si que estava constantemente escondido em cima de um ego rígido e muitas vezes maquiado pela cultura e pelo papel social que a pessoa desempenha, aproximando-se da essência ou si-mesmo de cada um.

Muitas pessoas puderam aceitar a possibilidade de olharem para si, de buscarem força e energia em um lugar que nunca imaginaram ter e com isso darem um novo significado para o próprio mundo interno.

O processo de autoconhecimento é bastante difícil, pois exige conhecer a sombra, acolher aspectos antes negados na consciência e promover um processo de ressignificação do sofrimento. Isso demanda tempo, energia psíquica e vontade. Quem estava em dia cuidando de sua saúde pode aprender em cada momento e daqui para frente com as mensagens de mudança que a pandemia trouxe. Muitos certamente estão melhores e mais adaptados a lidarem com os novos desafios que se apresentam.

Entretanto, as pessoas que possuem um desconhecimento sobre si, que não tenham ao longo dos anos dado à saúde mental o cuidado e a priorização que ela merece e necessita, se viu diante de momentos muito difíceis. Tiveram que encarar medos desconhecidos, raivas não trabalhadas, dores não consentidas.

Mas, não é preciso preocupar-se por não ter feito o dever de casa até o momento. A quarentena irá se estender e o mundo que teremos daqui para frente é diferente do que vivemos até agora. Nossa mudança poderá começar a partir de agora. Olhando para dentro de nós, conhecendo-nos e buscando a energia vital que se esconde nos recantos mais profundos de nossa alma, conseguiremos a modificação necessária para lidar com esse novo mundo que se abre. Entenderemos que apesar de toda dor sentida, todas as dificuldades experimentadas, estaremos mais prontos para novos desafios, mostrando a integridade e força mental.

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