LGBTQIA+ na pandemia

Adoecimento Psíquico de LGBT’s na pandemia do Covid-19

A pandemia do Covid-19 trouxe diversas consequências no que se diz respeito à saúde mental. Quando falamos sobre pessoas LGBT, essas consequências adquirem algumas questões extras.

A maior recomendação de segurança na pandemia do Covid-19, estar em casa em isolamento social, se tornou motivo de sofrimento psíquico intenso para grande parte da população LGBT. Uma contradição triste e alarmante.

Ao falar sobre indivíduos LGBT, estamos mencionando pessoas que rompem com dois pilares da nossa sociedade: a heteronormatividade e a gênero-normatividade. Contextualizando de forma sucinta, pessoas que rompem com a norma dominante de que o relacionamento entre heterossexuais é a única forma de se relacionar e com os papéis sociais atribuídos aos gêneros masculino e feminino.

Trazendo essas questões para o âmbito familiar, vemos que o imaginário de uma família, dentro desse contexto, será tomado por fantasias e projeções com base na heteronormatividade e gênero-normatividade. Logo, no caso de um filho ou uma filha romper com essa normatividade, uma das principais dificuldades será enfrentar a seguinte questão: “Como aceitar que meu filho/minha filha não será/é quem eu imaginei? ”.

Durante a quarentena, muitos LGBT’s se viram sem uma rede de apoio. A não aceitação dos pais e familiares em relação à orientação sexual e identidade de gênero, faz com que LGBT’s, durante a vida, criem sua própria rede de apoio, sua própria família e seu próprio grupo/nicho/gueto aonde possam viver e se expressar sem medo. Estar em casa em isolamento com a família trouxe alguns cenários aversivos e complicados, como:

1 – Família não sabe que a pessoa é LGBT e o sujeito se viu isolado e em contato direto com um meio que pode discriminar e atingir com profundidade feridas maternas e paternas, podendo gerar angústia, ansiedade, pânico, tristeza, depressão e em casos mais extremos, ideações suicidas.

2 – Família sabe que a pessoa é LGBT, mas esse assunto não é abordado. Com a pandemia, o sujeito é confrontado diariamente com esse isolamento de não poder se expressar como gostaria e se poda para evitar represálias ou qualquer tipo de agressão, seja física, verbal ou psicológica.

3 – Pessoas que fazem terapia, mas tiveram dificuldade ou não conseguiram se adaptar ao online por medo/receio de algum familiar descobrir que é LGBT.

Segundo pesquisa do #ColetivoVoteLGBT realizada em todo país, entre 28 de abril e 15 de maio, e com a participação anônima de 9521 sujeitos LGBT, 40% dos entrevistados ressaltou como maior queixa o afastamento da rede de apoio e 54% afirmou precisar de auxílio psicológico. Outro dado extremamente relevante foi o de que 28% dos entrevistados afirmou já ter recebido diagnóstico prévio de depressão. A marca é quase quatro vezes maior que a registrada entre a população brasileira, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (2013).

Todos os dados mencionados acima acentuam as sequelas do ponto de vista mental e psíquico de um LGBT que vive numa sociedade pautada nos modelos da heterormatividade e gênero-normatividade. Como consequência, uma ação muito comum de um LGBT é o de moldar sua Persona.

Carl Gustav Jung caracteriza a persona como a “pessoa pública”, aquela que está à vista do público. Murray Stein classifica a persona como algo muito mais em evidência, desempenhando um papel oficial, cotidiano e de adaptação ao mundo social. Essencialmente, a persona, que é a pele entre o ego e o mundo, trata-se não apenas de um produto de interação com objetos, mas também das projeções dos indivíduos nesses objetos. Adaptamo-nos ao que percebemos que as outras pessoas são e ao que querem.

O conceito de Persona, concebido por Jung, evidencia que inúmeros LGBT’s, com o intuito de estarem alinhados com a sociedade e com a máscara da psique coletiva acerca das questões da orientação sexual e identidade gênero, acabam por muitas vezes a moldar sua persona para seguir o princípio da heteronormatividade e gênero-normatividade. Ir contra esse princípio significa passar por inúmeros questionamentos morais e agressões dessa sociedade, correr o risco de ser julgado, estar desempregado, ser agredido ou até morto, o que faz com o que o sujeito reprima o seu ser e tenha dificuldades em expressar seu gênero e orientação sexual como bem entende.

Como profissionais da Psicologia, ficar refém de valores normativos significa legitimar o sofrimento de pessoas LGBT. Logo, é mais do que fundamental uma amplificação de parte da literatura da Psicologia Analítica, levando em conta a sociedade cada vez mais diversa e plural a qual estamos vivendo.

Finalizo esse texto com uma fala extremamente simbólica de uma entrevistada para um trabalho acadêmico que desenvolvi:

“Existem formas de ser e de se expressar que são repudiadas e enfrentar a sociedade exercendo-as requer muito mais que coragem, requer estar disposta a arriscar a própria integridade física e psíquica para reafirmar quem se quer ser de fato, e como se quer ser”.

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