Adolescentes e a pandemia

Adolescentes e a Pandemia

Trabalhar com adolescentes e jovens, vivenciando e acompanhando fases de desenvolvimento importantes pelas quais eles passam, sempre fez parte da minha rotina profissional. Esse ano de pandemia, e essa longa espera pela volta às atividades presenciais, está provocando em vários deles muito sofrimento. E muitas vezes, estão sofrendo calados.

É na adolescência que o jovem deve olhar para fora!! Para fora de casa, para fora da família, para além do que já foi aprendido até agora, se descobrindo como pessoa e começando a fazer suas próprias escolhas. Entrar no mundo dos adultos por si só gera ansiedade nos jovens, sendo essa uma questão desejada e temida ao mesmo tempo. Junto com a sensação de liberdade e a busca pela própria voz, perde-se o status de criança protegida, passando por mudanças corporais, psicológicas, cognitivas e sócio culturais.

Além disso, é uma fase em que se busca um novo tipo de relação com seus pais e com o mundo, podendo gerar no adolescente uma dificuldade em apresentar uma identidade coerente entre a criança que foi e o jovem que agora é ou que busca ser. Assim, começam os questionamentos em relação à família de origem e a busca por novas referências, aumentando normalmente o tempo que passam fora de casa. É comum nessa fase eles se afetarem profundamente pelos valores e julgamentos dos colegas e não se afastarem nunca dos seus amigos mais próximos.

Esse processo todo, na verdade, lhes traz segurança e faz parte do processo de individuação que, apesar de ser um processo natural e autônomo em todos nós, é marcado por intensas lutas da consciência contra forças inconscientes e obstáculos do mundo externo. É na adolescência que acontece a busca pela diferenciação dos pais, o impulso a novas descobertas e possibilidades de vida, assim como a busca pela autoafirmação como pessoa e de um certo grau de autonomia. O jovem deve estar fortalecido psiquicamente para conseguir enfrentar os obstáculos que aparecerão durante esse processo.

Tudo isso foi tirado deles de repente.

Apesar de essencial, esse caminho foi bruscamente interrompido com a necessidade do isolamento social. Com o advento da pandemia, as identificações com o mundo externo foram cortadas, ficando restritas a uma tela de televisão, de um celular ou computador – e mesmo isso só quando se tem o aparelho e o acesso à internet! Para muitos jovens e adolescentes, o dia a dia sem o embate com o mundo externo, trouxe a sensação de que tudo ficou sem sentido ou apavorante.

De um dia para o outro não puderam mais sair de casa ou estar com amigos, aprendendo com seus pares a construção das relações sociais. Muitos não puderam mais ir à escola, à faculdade, ao estágio ou até mesmo não puderam vivenciar plenamente a experiência do primeiro emprego que tinha acabado de começar. Assim foram também impedidos de desenvolver suas capacidades de convívio em grupo, interação com o novo, os desafios, as provações.

No começo da pandemia, acreditaram que era só uma fase, que terminaria em breve e que voltariam à normalidade, mas foram aprendendo duramente, aos poucos, que isso não aconteceria. No início buscaram atividades novas e diferentes para se ocupar, mas com o passar dos meses, tudo foi perdendo o sentido. Até mesmo a busca por sentido. Dias repetitivos, o tempo não passa. Alguns sintomas físicos como ânsia e diarreia. Sem falar da insônia. Essa derrubou muitos jovens.

Como se organizar? Como se concentrar? Aplicativos, listas, alarmes…

Não ver os amigos é o pior aspecto da pandemia relatado por eles. Como se sentir bem sozinho? Como se conhecer e se aceitar nas limitações internas quando se ainda está em processo de formação? Aprender a importância de se viver o momento presente na fase da vida em que se planeja o futuro… Medo do que pode acontecer, energias e pensamentos negativos rondando. Tudo muito difícil e confuso.

Desolação em relação ao futuro, solidão, tédio, ansiedade e insegurança tomaram conta. Buscar motivação dentro de si trouxe junto a percepção de quanto é importante a interação com as outras pessoas, e com os professores. Como será tudo depois? Como eu serei depois? Relacionamentos, estudos, trabalho: serão como era? Eu serei como eu era?

As redes sociais… aliadas ou inimigas?? E como combater o cansaço das telas?? Isolando-se mais??

Muitos jovens expõem nas redes sociais os seus relacionamentos, suas conquistas, suas opiniões e julgamentos, sempre monitorados e também julgados por outras pessoas, muitas vezes desconhecidas, e isso se intensificou durante o isolamento social.

Às vezes no objetivo de alcançar o maior número de seguidores, obter o maior número de curtidas e comentários em suas postagens nas redes sociais, acabam eventualmente excluindo postagens por não alcançar um determinado público, o que acaba por gerar ainda mais insegurança a respeito de si mesmo. Com isso, alguns saíram de suas redes sociais por perceber que estava fazendo mais mal do que bem.

Somadas todas essas questões a um convívio forçado com a família nuclear 24 horas por dia, em muitos casos sem conseguir um mínimo de privacidade, esse adolescente teve regredido o seu desenvolvimento a caminho da individuação, com a interrupção no processo de busca por identidade fora de casa, sufocando muitos de seus desejos, abafando seus pensamentos e em alguns casos, desenvolvendo ansiedade ou depressão.

O vazio e a falta de sentido são alguns dos sintomas da depressão. Ser impedido de seguir um chamado pode ser para alguns o mesmo que negar o sentido da vida. Segundo Jung, para os jovens em processo de formação e no auge do desenvolvimento da personalidade, ter esse chamado asfixiado, principalmente por fatores externos pode provocar um sofrimento imenso. Necessitamos urgentemente entender que essas pessoas ainda não contam com seu desenvolvimento mínimo para suportar toda essa carga.

Muitos adolescentes e jovens acabaram por se evadir das atividades pedagógicas por motivos variados, desde a falta de equipamentos apropriados ou de internet, até pela dificuldade que muitos têm em se expor ligando a câmera, seja por causa da sua própria imagem seja por causa do entorno: sua casa, seu quarto, seus parentes, ou até mesmo falar ao microfone pode ser extenuante para alguns.

Um outro aspecto importante foi que alguns desses jovens tiveram arrancados deles a possibilidade de vivenciar alguns ritos de passagem importantes, como a formatura na escola ou na faculdade por exemplo. De uma hora para a outra, no último ano do ensino médio, ou no último semestre da faculdade, foram impossibilitados de ter essa vivência tão importante.

Com tudo isso cresceu entre eles a insegurança em relação a como o mundo vai sair dessa pandemia, quais serão as possibilidades, os empregos, as carreiras… O impacto econômico também foi muito grande em várias famílias, aumentando os conflitos dentro de casa e gerando insegurança emocional. Alguns se sentiram no dever de ajudar os pais, sendo que ainda não sabem como fazê-lo, aliado ao sentimento de impotência também por estar trancado em casa. O sofrimento psicológico foi muitas vezes brutal.

Segundo Byington, a revolução arquetípica da adolescência é intensa e transformadora, porque ela envolve a vivência de orfandade por matricídio e parricídio simbólicos. Essa vivência simbólica é também a separação inconsciente do ego da criança dos arquétipos materno e paterno. Portanto, o jovem se torna muito idealista, mas ao mesmo tempo instável, inseguro e vulnerável às influências revolucionárias heroicas.

Esse adolescente precisa buscar ter a privacidade preservada mesmo dentro de casa com a família, além de achar maneiras de se colocar como pessoa frente aos pais. Quando os pais se identificam com a força criativa do filho podem compreendê-lo, recuperar dentro de si a sua própria adolescência, e neste momento, conseguem entender melhor as dificuldades pelas quais eles hoje estão passando, sem minimizá-las, dando o suporte necessário para que ele ou ela atravesse esse momento que a humanidade está vivendo da melhor forma possível. Buscar ajuda profissional para lidar com a insegurança, insônia, desânimo, e os ataques de ansiedade e de pânico também pode ser fundamental em alguns casos.

Nosso cenário capitalista e consumista parecia moldar o que sentimos, o que vestimos e o que queremos com impressionante eficácia.  Diante do advento da pandemia, esses modelos prontos sobre o que devemos fazer para sermos felizes, o que devemos comer para termos beleza e saúde, ou o que devemos buscar se quisermos sucesso e dinheiro parecem não ser mais verdade. As respostas sobre nossas vidas que pareciam estar tão claras e absurdamente dependentes apenas de um esforço pessoal para resolver qualquer problema agora já não são mais. Para muitos, tudo isso agora parece obsoleto e sem sentido.

Qual é o caminho para devolver aos jovens a possibilidade de continuarem se desenvolvendo apesar de tudo o que está acontecendo?? O que podemos ensiná-los ou incentivá-los a buscar? Podemos falar em resiliência. Mas esse pode ser às vezes um conceito perigoso. Pode-se entender a resiliência como um “aceitar tudo o que vem”, uma resignação exagerada que paralisa.

Quero falar aqui sobre resiliência no sentido de desenvolver recursos internos para bancar o confronto com essa nova realidade, desenvolvendo uma capacidade de ter reações positivas frente às adversidades no sentido de encontrar caminhos possíveis, ou saídas criativas para esses impasses, e serem capazes de voltarem a trilhar suas jornadas mesmo de dentro de casa.

Falar sobre toda essa problemática por meio de pequenas rodas de conversa mediadas por psicólogos ou terapeutas online para que possam se abrir e ouvir outros que estão na mesma situação, com os mesmos medos e incertezas pode ser muito reconfortante. Ao mesmo tempo é importante buscar possibilidades novas, se planejar, mesmo que seja para um futuro incerto.

Destaco também a atividade física para auxiliar no sono e no afastamento de pensamentos ruins (como eles chamam…!). A importância da atividade física!! Eles sabem disso! Até tentaram no começo. Até sentiram melhora em muitos aspectos. Mesmo assim abandonaram com o tempo. Hoje pouco ou nada. Por isso mesmo devemos insistir muito nesse ponto, e que eles não fiquem o tempo inteiro lendo e escutando sobre as tragédias da pandemia, tanto na questão sanitária de saúde como na questão econômica das famílias e empresas em geral.

A partir do recolhimento de projeções e a consequente ampliação da consciência, poderão alcançar uma auto aceitação de seus defeitos ou problemas. Poderão então, começar a reconhecer as emoções negativas que irrompem no dia a dia, diminuir a vergonha por esses sentimentos e pensamentos negativos, além de moderar julgamentos sobre outras pessoas, possibilitando assim relacionamentos mais saudáveis.

O adolescente necessita primeiramente ser compreendido e nesse momento acompanhado, pois os problemas podem se transformar em questões difusas, o buraco no peito, a dor no corpo, a falta de sono ou incapacidade de levantar da cama de manhã.  É importante que estejamos atentos a eles, pois um gesto como o de acolher por meio da escuta pode salvar uma vida e dará à pessoa acolhida a possibilidade de ouvir o seu chamado, evitando chegar a casos extremos onde a carga fica pesada demais.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.ABERASTURY, A. M., & KNOBEL, M. – Adolescência Normal: Um enfoque psicanalítico. Porto Alegre, RS: Artmed, 1981.

2.BERNDT, Christina. Resiliência: 2.ed. Petrópolis: Editora VOZES, 2018.

3.DAHKE, R. (2009). Depressão: Caminhos de superação da noite escura da alma. São Paulo: Cultrix.

4.JUNG, Carl G. O Desenvolvimento Da Personalidade: 14. ed. São Paulo: Editora VOZES, 2013.

5.PUCORTES, Francisco Jr, O Simbolismo da Depressão na Perspectiva Junguiana, 24/06/2011. file:///C:/Users/Renata%20Jaffe/Downloads/19791-34131-1-SM%20(2).pdf

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