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Matrix – A Mãe Terrível

Eu me lembro bem do “barulho” que o filme Matrix reverberou no mundo do cinema e da cultura pop na época. Originalmente, foi lançado como um filme único, mas o sucesso foi tanto que logo viu-se a possibilidade de explorar mais a história e criar mais 2 filmes (com um quarto filme previsto para o final de 2021).

Eu já havia assistido a entrevista do mitólogo Joseph Campbell, autor do livro O Poder do Mito, então foi muito fácil fascinar-me pelo enredo, bem como pelos belos efeitos especiais. Anos mais tarde, ao reassistir o filme, dessa vez influenciado pela teoria do Jung, consegui ter uma visão mais amplificada e simbólica.

Logo no início, a referência à obra do Lewis Carroll, Alice No País das Maravilhas, fica evidente pela mensagem “siga o coelho branco” que é o condutor da Alice para o buraco onde ela cai e começa a vivenciar várias aventuras. A queda no buraco, que simboliza a imersão no inconsciente, já começa a suscitar várias reflexões, da mesma forma que o nome do protagonista Neo (novo), sua missão -despertar para um novo homem-, e o título do filme que significa mãe, matriz, útero, entre outros significados possíveis.

A famosa alegoria da Caverna do filósofo Platão também se faz presente de maneira muito clara. Aliás, caverna, gruta, templo, todas elas nos remetem ao símbolo da mãe, e/ou do útero materno, que é um lugar de aconchego, uma zona de conforto que também pode aprisionar como uma mãe terrível ao impedir que seu filho vá para a vida. Digo terrível porque deixa o filho aprisionado física e animicamente; ele fica com medo de viver a vida e passa a viver como uma eterna criança sempre dependente da mãe, esperando que o mundo também lhe seja maternalmente compreensível em todas as esferas. Ele fica esperando ser sempre amado e acolhido onde quer que vá, o que tem acontecido bastante nos últimos anos. Quem é ou já foi professor e/ou teve que lidar com jovens, é capaz de verificar como eles têm dificuldade em respeitar hierarquia, normas e acredita que a empresa ou a escola devem ser maternais com eles. Não à toa foram batizados de “Geração Canguru”.

A metáfora bíblica da expulsão do paraíso se faz muito bem vinda aqui neste caso, uma vez que ser expulso do paraíso é uma das melhores coisas que pode acontecer a alguém, no que diz respeito ao amadurecimento e ao despertar para a realidade. A zona de conforto nos invalida e nos transforma em perdedores antes mesmo de lutar pela vida. Pra quem não se conforma com essas zonas de confortos, as contínuas expulsões dos paraísos, as transições das fases, devem ser sempre encaradas como presentes da vida para todos aqueles que querem ouvir o seu verdadeiro chamado do Self (ou chamado divino) e que anseiam por uma vida mais vivida, vivenciada e/ou “experienciada”, com um sentido mais amplo. Por essa razão devemos sempre agradecer aos nossos “tropeços”, “erros”, “pecados” e “fracassos”, pois eles são sempre os nossos grandes mestres. A vida é uma constante expulsão de paraíso: do nascimento em si quando saímos da comodidade do útero e somos jogados à luz; da infância para adolescência; da adolescência para a vida adulta de responsabilidades e boletos; e assim sucessivamente. É necessário aprendermos a agradecer às “expulsões do paraíso”; todas elas têm a intenção de nos amadurecer, fortalecer e nos guiar ao caminho da individuação.

“Eu não gosto da ideia de não estar no controle da minha vida”, esta é uma das muitas frases emblemáticas do Neo, um grande aprendizado. Quando achamos que está tudo controlado e no seu devido lugar, vem a vida e nos surpreende com alguma perda. Pode ser a perda de um emprego, de alguém que vai embora sem avisar, de um ente querido que faleceu, da nossa autonomia com um acidente que nos limita fisicamente, etc. A vida é dinâmica e a rotina, da qual nós tanto reclamamos, é o que nos dá essa (falsa) impressão de que comandamos nossas vidas. Ao observarmos os tempos atuais, encontramos privações de abraços, beijos, passeios e diversão. A pandemia do COVID-19 quebrou a rotina, mostrou que não estamos no comando de nada e trouxe aprendizados valiosos.

Todos temos uma jornada do herói a ser cumprida, um caminho a seguir para a individuação que envolve, em um primeiro contato, a recusa, pois quem quer sair da zona de conforto? Quem quer se confrontar com a própria sombra e ver algo que não imaginamos? É preciso autoconhecimento, coragem e acreditar que “cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz” (Almyr Sater e Renato Teixeira).

É importante que seja observado, também, que as palavras “erro”, “pecado”, “falha”, “fracasso”, “bem”, “mal”, etc., devem sempre ser escritas entre aspas e vistas com ressalva. A vida independe de nossas mesquinhas vontades e do nosso pequeno ego que “gosta de inflar” como um “chefe de seção que pensa ser o dono da empresa”. Cabe a nós nos livrarmos desse medo (sim, fugimos por medo do contato com a sombra), e de nos entendermos como instrumentos de um mistério que não pode ser alcançado por meio da nossa limitada mente racional: o transcendente.

“Como homens nós nos achamos, sem o querer, em situações em que os “principia” (princípios) nos enredam em qualquer coisa de indefinido, em situações nas quais Ele nos deixa entregues à responsabilidade e à iniciativa de encontrarmos a maneira de sair delas. Às vezes, com sua ajuda, aparece um caminho de saída, mas quando se trata de enfrentar realmente o problema, a impressão que temos é a de que fomos abandonados por todos os bons espíritos”. (JUNG, Escritos Diversos, pg.129)

Chame-o de Deus, Alá, destino, Self, ou YHWH (Javé), mas saiba que o mais importante é saber que não se chega ao transcendente, nem se vivencia o numinoso por meio do racional ou da função pensamento. A vida nos escapa, nos encontra, nos sacode e nos coloca onde devemos estar. O filósofo Descartes resumiu bem a mente racional quando disse: “Penso, logo existo”. Mas como existir é diferente de viver, ouso complementar com a frase: Sinto, logo vivo.

Depois de todo o embate interno, se achando vítima de injustiça, tais quais os exemplos bíblicos da luta de Jacó com o anjo, e a de Jó com a sua fé diante de tantas desgraças sofridas, o herói ainda insurge mesmo com as suas forças reduzidas.

“E, apesar disto, o indivíduo sente que talvez nunca tenha sido tão fiel à sua natureza e a seu apelo mais íntimo e, consequentemente, também ao Absoluto, porque apenas ele e o Onisciente veem a situação, por assim dizer, a partir de dentro, ao passo que aquele que sentencia e condena só a vê a partir de fora.”. (JUNG, Escritos Diversos, pg.129).

O filme é repleto de referências mitológicas: Trinity (Trindade), Morpheus (o deus do sonho), o Oráculo que remete ao de Delphos, Cipher que trai a todos como o Judas bíblico, entre outras.

Há também no filme um diálogo entre Morpheus e o agente Smith, onde este compara a raça humana a um vírus, pois agimos como uma besta que destrói indiscriminadamente, ignorando o próximo e os reflexos dessas atitudes inconscientes. A inconsciência é um dos nossos grandes problemas enquanto seres humanos por nos colocar em xeque no que diz respeito à alcunha de humano; muitas vezes somos terrivelmente desumanos para com o outro sem saber que, quando ignoramos o outro, ignoramos nós mesmos em vários aspectos.

Tudo que nos acomoda, nos desvia da jornada de herói e do processo de individuação. Viver na acomodação, na zona de conforto, dentro desse útero materno que não nos deixa nascer, crescer, morrer, nem ressuscitar, é um desrespeito à vida. “As flores de plástico não morrem” (Titãs), mas também não vivem, não exalam perfume, não encantam, nem inspiram os poetas. Quem se recusa a ouvir o seu “chamado divino” está trocando o viver/vivenciar pelo simples existir. O existir burocrático, pragmático, rotineiro, dos boletos e do divertimento raso e superficial, sem vida simbólica. Caminhador errante cujo destino é o nada e cuja vida nada passará de uma existência “stricto sensu”. É necessário florescer.

A identificação com o herói do filme, do livro ou do esporte que tanto nos toca e nos emociona habita em nós. O herói que salva o mundo na ficção da tela do cinema, que abdica de muitas coisas para conquistar aquilo que ele mais ama ou que no campo, em um jogo decisivo, faz o gol da vitória e arranca um grito gutural e selvagem da nossa garganta. Todos nos causam essas sensações porque o ato heroico (seja ele qual for) também habita em nós.

“O que é real? Como você define o real? Se você está falando sobre o que pode sentir, o que você pode cheirar, o que você pode saborear e ver, o real são simplesmente sinais elétricos interpretados pelo seu cérebro.” (Morpheus em cena do filme Matrix).

A verdade é que nessa realidade em que vivemos (ou apenas existimos?), onde fato e ficção, sonho e real, se fundem e nos confundem, é difícil dar conta do nosso caminho. Este é o conceito de Gaya: ilusão.  Somos distraídos por forças manipuladoras como a mídia, a moda, o marketing e tantas outras, que só nos levam de volta à caverna, ao útero quentinho onde todas as responsabilidades estão nas mãos de outrem. E mesmo assim, quando nos deparamos com as dificuldades e com a nossa individuação exigindo um esforço hercúleo, a tendência é “mudar de assunto”, mudar de rumo e viver dentro de uma bolha narcísica onde só enxergamos e ouvimos o que nos agrada e alimenta a nossa medíocre vaidade.

A mãe terrível nos seduz com o conforto, mas o herói nos chama pra fora e cabe a nós decidirmos o que queremos ser quando crescer. Heróis caindo, sofrendo, mas vivenciando e individuando? Ou adultos infantilizados (puer aeternus) e amedrontados no calor do útero materno que nos acolhe e aleija ao mesmo tempo?

É no arquétipo do herói personificado por Neo que, inspirado sobretudo por Cristo, vemos o conceito de “Imitatio Chirsti”, ou seja, imitar Cristo no que diz respeito a ouvir o seu chamado Divino, mesmo que ele traga tristeza, sofrimento e tragédia. Nada disso deve ser motivo para se acovardar, mas sim para prosseguir de maneira imparável em direção ao Self, pois morreremos simbolicamente muitas vezes nesta nossa breve vida.

“Como vivemos numa sociedade que não tem consciência de sua evolução e ainda está muito longe de entender o significado do símbolo cristão, vemo-nos diante da tarefa de agir contra a desvalorização deste último. (JUNG, Escritos Diversos, pg.141)

Que possamos ir para a vida, nascer e renascer. Que o medo e as intempéries não nos desvie do caminho, nem nos deixe satisfeitos com as sombras refletidas na parede da caverna. A tentativa desesperada de adequação ao que não faz mais sentido, só nos leva ao sofrimento e às doenças da alma/psique. Que nenhum útero seja sedutor o suficiente para nos desviar do caminho que devemos encontrar e trilhar, apesar de todas as dificuldades. Sofrer, chorar e mesmo fazer-se de vítima pode ocorrer, mas deve ser breve, pois os louros de uma vitória que ultrapassa os nossos míseros racionalismos nos espera logo ali, onde ainda não sabemos.  “Só o significativo traz a salvação.” (JUNG, Escritos Diversos, pg. 84)

Um grande abraço a todos!

Almy Araújo

Sugestão filme – A Pé Não Se Vai Longe:

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