Novembro Azul

Novembro Azul – Um olhar simbólico

“A maioria de nós está aprisionada no interior de uma armadura – declarou o rei.¹”

O câncer de próstata mata milhares de homens ao redor do mundo todos os anos! Não me parece haver nenhuma informação nova ou qualquer novidade nesta afirmação. Assim como também não há novidades ao falar sobre o desconforto e sobre o preconceito que permeiam o exame de toque retal feito pelos médicos urologistas ao examinar a próstata dos homens que se submetem ao exame e não é de hoje que sabemos que o diagnóstico precoce de qualquer doença é fator chave no sucesso de seu tratamento. Estatísticas não nos faltam a esse respeito, portanto, este espaço não será utilizado para alertar qualquer um de nós homens e mulheres para que mais uma vez incentivem seus maridos, parceiros, companheiros, pais, alguém especial em nossas vidas, incluindo nós mesmos de tal importância. Afinal, tecer críticas, tentar modificar, afrontar ou intimidar de alguma forma uma dinâmica psíquica estabelecida e regida por arquétipos2 de nosso inconsciente coletivo me parece uma tarefa pouco produtiva.

O convite proposto neste espaço é o convite para uma reflexão, um olhar mais abrangente, um olhar isento de julgamentos e de questionamentos, um olhar curioso e terapêutico sobre as doenças que afetam a próstata; um olhar simbólico.

Para Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço criador da Psicologia Analítica, a vida simbólica3 se caracteriza por uma dinâmica psíquica mais leve, criativa e integrada com a própria essência de cada indivíduo, ou seja, uma vida menos literal, menos rígida e menos defensivamente reprimida.

A próstata, conforme dados disponíveis na página de urologia do site de um importante hospital de São Paulo4 é “…uma glândula e faz parte do aparelho reprodutor humano. Ela fica abaixo da bexiga e acima do reto, englobando toda a volta da primeira porção da uretra. A próstata colabora com a produção do fluido seminal que ajuda a carregar os espermatozoides durante a ejaculação. Um dos problemas mais comuns da próstata é o seu crescimento benigno, que, com o passar do tempo, pode comprimir a uretra e causar dificuldade para urinar”.

A página do hospital disponibiliza também de forma simples e objetiva as principais doenças que podem acometer a próstata, sendo elas, em ordem crescente de agressividade, a hiperplasia prostática benigna, que é um aumento da próstata, sem causas específicas, mais comum em homens a partir dos 40 anos de idade. Vários fatores são levados em consideração para seu surgimento, entre eles a principal é a herança genética do indivíduo. A hiperplasia prostática benigna tem tratamento relativamente simples e, como todas as disfunções que conhecemos, se não tratada adequadamente pode evoluir para problemas de saúde mais sérios e complexos com o passar do tempo. Avançando para outra doença bem mais séria desde seus primeiros sintomas, as prostatites agudas são processos inflamatórios importantes que devem ser tratados com antibióticos prescritos pelo médico especialista. Não tratados, transformam a próstata doente em um difusor de bactérias através da corrente sanguínea, podendo gerar infecções generalizadas e levar o indivíduo à morte literal; nada de simbólico neste ponto. Por fim, chegamos ao mais falado dos problemas, o câncer de próstata. É uma doença grave, não contagiosa e que não tem origem claramente definida. Sabe-se, porém, que é mais comum em homens a partir dos 60 anos de idade; não descartados surgimentos em idades anteriores e não são poucas as claras e contundentes recomendações médicas para a realização de exames de prevenção bem antes dessa idade. Não tratado precocemente, o Câncer de Próstata pode se espalhar por outros órgãos do corpo do indivíduo, inclusive pelos ossos, ocasionando uma doença metastática e levando mais uma vez o indivíduo à morte literal.

Essa pequena introdução objetiva unicamente posicionar o estimado leitor e a estimada leitora em relação às doenças da próstata; sem nenhuma pretensão de esgotar o assunto ou propor qualquer tipo de tratamento. Como dito anteriormente, este espaço é um convite à reflexão.

Feitas tais considerações, passamos a observar a próstata com um olhar mais abrangente, simbólico e arquetípico, com vistas ao processo de individuação5, conceito central na Psicologia Analítica. Segundo Jung nascemos indiferenciados do todo, do inconsciente coletivo; onde é registrada a nossa história como espécie.  Ao passo que nos desenvolvemos, vamos acumulando energia psíquica por meio de nossas experiências sensoriais (vivências) e assim nos diferenciando gradativamente do todo em que nascemos e passamos a nos tornar quem somos. Neste processo, nos desidentificamos do inconsciente coletivo e desenvolvemos nosso inconsciente pessoal. De forma extremamente sintética, inconsciente pessoal é o local de nossa psique onde são armazenados nossos conhecimentos sobre nós mesmos e sobre nossa visão de mundo. Esse desenvolvimento caminha naturalmente para um processo de integração dos vários aspectos de nossa psique nos tornando um “individuum” psicológico, uma unidade autônoma, harmoniosa e indivisível, coisa que segundo o próprio Jung dificilmente se concretiza ao longo de nossa história.

Ocorre que ao longo de nossa jornada somos expostos à inúmeras vivências, desde o nosso nascimento, que podem nos afastar dessa essência, desse caminho natural e passamos a desenvolver mecanismos de adaptação ao meio em que vivemos, nos identificando assim com as Personas6 que criamos. À luz da Psicologia Analítica, um indivíduo identificado com sua persona é como já citado anteriormente, um indivíduo que em detrimento de uma vida simbólica, criativa e integrada com seu interior, em contato com sua essência, vive uma vida literal e rígida e defensivamente reprimida. Essa identificação muitas vezes causa conflitos e transtornos ao indivíduo que mesmo de forma inconsciente passa a atuar no mundo exclusivamente em conformidade com a parte da sua personalidade que foi desenvolvida em suas interações sociais, sua face externa consciente, a face que usa em seu dia a dia, uma personagem adaptada às necessidades do meio, a sua máscara social – sua persona – e com isso, afasta-se cada vez mais de sua essência e de seu processo de individuação.

Acredito que Jung nunca tenha comentado em sua vasta obra sobre os problemas ou doenças da próstata, entretanto postula em seu livro Psicologia e Alquimia7, no parágrafo 394, que o resultado do trabalho alquímico – opus alquímico – não deve ser procurado apenas na matéria e sim em um corpo sutil que permanece na não existência por quanto se avaliar apenas o resultado na matéria. De certa forma, unindo físico e psíquico Jung traz para a psicoterapia não só os conceitos alquímicos ancestrais como também os conhecimentos de povos da antiguidade que acreditavam que as doenças do passado eram manifestações de desarmonia com o divino interior. As doenças eram criações / somatizações de nós mesmos; sintomas de um estilo de vida que vai em sentido contrário à essência do indivíduo quando este está fora de seu caminho natural, fora de seu processo de individuação.

Seguindo nos estudos de Jung, com essa premissa em mente, encontramos outra citação que nos afirma que padrões psicológicos arquetípicos, ou seja, uma dinâmica psíquica influenciada por representações arcaicas, existentes em todas as culturas (deuses, por exemplo), podem se manifestar em forma de doenças nos nossos dias.

“Congratulamo-nos por haver atingido um tal grau de clareza, deixando para trás todos esses deuses fantasmagóricos. Abandonamos, no entanto, apenas os aspectos verbais, não os fatos psíquicos responsáveis pelo nascimento dos deuses. Ainda estamos possuídos pelos conteúdos psíquicos autônomos, como se estes fossem deuses. Atualmente eles são chamados: fobias, compulsões, e assim por diante; numa palavra, sintomas neuróticos. Os deuses tornaram-se doenças.”

Carl Gustav Jung

Num curto apanhado, somos alertados para o fato de que nossas dinâmicas psíquicas podem ser reproduzidas fisicamente em nossa forma de agir e pensar e podem nos levar a desencadear doenças físicas, tal qual afirmam metafísica e a psicossomática em nossos dias. Essas duas, entre outras correntes terapêuticas, discorrem sobre as várias questões de saúde física que conhecemos, inclusive as doenças da próstata.

Valcapelli e Gasparetto8 postulam que a próstata representa as características individuais do homem e seu estilo natural de ver e atuar no mundo. Para os autores, o triunfo do homem é alcançar seus objetivos de acordo com seus métodos e agindo de sua maneira própria, caso contrário, mesmo atingindo seus objetivos não se sentirá vigoroso e capacitado; sentimentos imprescindíveis para a realização da figura masculina. Em sentido oposto, o homem, ao perder o referencial de si mesmo compromete seu caráter e corre o risco de ver seu estilo destruído por uma outra realidade, diferente da sua, que deteriora sua integridade. Assim, caso o homem não preserve seu estilo, sua forma de agir e de alcançar resultados, mesmo os alcançando não se sentirá uma pessoa realizada e feliz.

Semelhantemente ao conceito de individuação de Jung, quando nos desviamos de nosso caminho natural, perdemos nossa identidade e nos afastamos de nós mesmos e de nossa essência gerando disfunções em nossos sistemas. Para Valcapelli e Gaparetto os problemas da saúde da próstata estão diretamente relacionados à perda do caráter original do homem, ou seja, ao transgredir sua natureza íntima e adotar comportamentos socialmente esperados – persona – normalmente desconectados de sua essência, de seu modo natural de existir e atuar no mundo. Como resultado de tal dinâmica o homem, mesmo alcançando resultados, acumula para si mesmo sensações de insucessos gerados ao longo da vida. O homem que deveria aprimorar-se e se desidentificar da persona procurando atuar de formas mais criativas, ao contrário, torna-se um indivíduo frustrado que carrega em sua bagagem psíquica sentimentos de revolta consigo mesmo, de forma consciente e/ou inconsciente, proporcionando campo fértil ao surgimento da sensação constante de culpa. Segundo os autores, na metafísica, a culpa figura como um dos principais gatilhos para o surgimento das doenças da próstata.

Na metafísica, assim como na Psicologia Analítica, é fundamental que o homem atue no mundo em sintonia com sua essência de uma forma menos literal e mais simbólica, uma forma que nos aproxime do nosso inconsciente e de nosso processo de individuação, ou seja, viver uma vida de forma simbólica nos aproxima daquilo que realmente somos e fazemos e, ainda, afasta de nós situações psicologicamente perigosas de unilateralidade e ignorância tais quais ocorrem quando nos identificamos com a persona que criamos.

Valcapelli e Gaspareto alertam em seu livro que o caminho do homem para a prevenção e a cura das doenças da próstata iniciam pelo autoconhecimento, com o autocuidado, com aceitação de si mesmo com todas as suas características; suas fraquezas e suas potencialidades e, principalmente, pela realização de uma vida em consonância com sua essência. Essa não se resume em uma tarefa fácil, como já nos alertou Jung, a individuação, ou seja, o processo de nos tornarmos quem realmente somos dificilmente se concretiza, porém, nos mostra ser um caminho que pode nos poupar de muito desconforto.

E por falar em desconforto, encerrando esse pequeno espaço de reflexão, precisamos lembrar do desconforto do exame de toque retal mencionado inicialmente. E se o prezado leitor e a prezada leitora tiverem sua curiosidade despertada sobre a necessidade da realização do exame próprio ou de algum ente querido, eu pessoalmente, autor deste texto, posso garantir que todo o desconforto do toque retal simplesmente desaparece mediante a notícia de uma provável doença metastática, mediante a preparação e a realização de exames de ressonância magnética e cintilografia em algum centro de oncologia. A visita da morte é, inicialmente, assustadora quando nos deparamos com a nossa finitude, com a nossa impermanência e a impermanência das coisas às quais nosso ego se identifica. Com o passar dos dias, longos e sombrios, pensamos em tudo o que gostaríamos de ter feito e planos que ainda temos; de como fomos por vezes polarizados e até insensíveis com nossa essência e muitas vezes com aqueles que amamos. Don Juan, um índio Yaqui mexicano, xamã costumava dizer, como relatado no livro A Águia e o Colibri9 “…nunca é demais falar sobre a morte que nos fita, acompanha e aconselha, advertindo-nos com relação aos enganos e tropeços existenciais. Dizia que ela se encontra sempre à nossa esquerda à distância de um braço, a nos sussurrar, sabiamente, que nada importa além do seu toque, que chegará no tempo justo” e continua em outro trecho do mesmo livro “…sem a consciência da morte, o que prevalece é uma normose distraída do banal, do trivial, da negação da impermanência. Dar-se conta de que a morte nos ronda e espreita é o que torna vital a existência do mistério insondável do universo. O existir se torna mais leve e saboroso com a consciência da impermanência quando a morte se torna amiga e mestra”.

Caro leitor e cara leitora desejo de todo o meu coração a cada um de vocês uma existência leve, simbólica e conectada com sua essência.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

  1. Fisher, Robert – O cavaleiro preso na armadura – Uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade – 30ª. Edição – Record – Rio de Janeiro – São Paulo – 2019 – p. 57
  2. Jung, C. G. – Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Vol. 9/1, 10ª. Edição – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 2013
  3. Jung, C. G. – A Vida Simbólica, Vol. 1 – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 2013
  4. https://www.hospitalsiriolibanes.org.br/hospital/especialidades/nucleo-avancado-urologia/Paginas/doencas-prostata.aspx – acessado em 31/10/2020
  5. Hopcke, Robert H. – Guia para a Obra Completa de G. G. Jung – 3ª. Edição – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 2012
  6. Humbert, Elie G. – Jung – 25ª. Edição – Summus – São Paulo – SP – 1985
  7. Jung, C. G. – Estudos Alquímicos – Obra Completa – Vol. 13 – Editora Vozes – Petrópolis – RJ – 2013
  8. Valcapelli & Gasparetto – Metafísica da Saúde – Vol. 2 – Sistemas Circulatório, Urinário e Reprodutor – Editora Centro de Estudos Vida & Consciência – SP – 2016
  9. Crema, Roberto e Werá, Kaká – A Águia e o Colibri – Carlos Castañeda e a Ancestralidade Tupi-Guarani; Trilhas com Coração – Editora Arapoty Livros

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