O Complexo Paterno e a Sociedade dos Poetas Mortos

O Complexo Paterno e A Sociedade Dos Poetas Mortos (1989)

Eu tendo a acreditar que eu sou perseguido pelo filme A Sociedade dos Poetas Mortos. O nosso primeiro encontro aconteceu há muitos anos, literalmente no século passado, quando eu cursava o primeiro ano do ensino médio. Enquanto os colegas acostumados com os filmes de ação saíram decepcionados, dizendo que o filme “não tinha nada a ver”, eu saí pensativo.

Algum tempo depois, eu fui à locadora e o aluguei para que pudesse assisti-lo com mais calma e atenção. Gostei mais dele a partir deste segundo momento. Tanto que convidei alguns amigos que eram mais velhos que eu, e que eram ligados ao teatro, para também o assistirem comigo e as lágrimas das meninas durante a cena final foi o melhor retorno que pude ter recebido.

Anos mais tarde, na faculdade de letras, tive que assisti-lo mais uma vez, pois tinha que fazer uma atividade para a matéria de psicologia. À época eu nem imaginava quem era Jung e muito menos que, mais de uma década depois, Robin Williams e outros personagens me encontrariam mais uma vez durante uma conversa com uma querida maestrina e colega de especialização em psicologia analítica.

Apesar de termos uma polifonia no enredo, o foco aqui será no complexo paterno negativo que emerge da relação entre o personagem Neil e o seu rígido pai, Mr. Perry, que me chamou particularmente a atenção devido eu ter tido uma criação rígida por parte do meu progenitor, também. Logo, o meu complexo paterno guardado na minha sombra (e o de todos que passaram por situação semelhante) era “instantaneamente ativado”, todas as vezes em que o autoritarismo do pai se apresentou. A voz opressora que ordena e nunca escuta.

O Complexo Paterno e O Filme (Ambientado na década de 1950)

Tradição, Excelência, Disciplina, Honra. Esses são os pilares da Academia Welton, uma escola só para meninos. Há 100 anos nascia esta escola, então com 40 alunos. Uma das primeiras cenas mostra o que o diretor da escola chama de “a luz da sabedoria”, aqui representada por uma vela na mão de cada aluno, tendo sido acesa por um dos professores e passado aos alunos, de um para o outro.

O pai do personagem Neil (Mr. Perry) se apresenta sempre com severidade, dando ordens e não aceitando nenhum questionamento por parte do filho. Ele diz ao filho que saia de uma das atividades da qual participa pois está com muita coisa. Mas essa é uma das atividades que Neil mais gosta (teatro) e mais tem reconhecimento, e quando tenta contra argumentar é imediatamente repreendido com rudeza por responder ao pai. Este lhe diz que o filho não deve reclamar e frisa o quanto é importante para sua mãe que ele entre na faculdade de medicina. Então ele obedece e não assume que está chateado nem para os amigos.

“Os indicadores de complexo são os sinais de perturbação.”, escreveu Murray Stein no seu livro O Mapa da Alma. “E durante o famoso teste de associação de palavras em que a velocidade da resposta da palavra- estímulo por parte do participante do teste era mais demorada, evidenciava que estas palavras eram carregadas de significados pessoais e até mesmo traumas. As palavras-estímulo eram carregadas de significados emocionais e despertavam reações incômodas, tristes ou coléricas dos que se submetiam ao teste. Ao conteúdo inconsciente responsável pelas perturbações da consciência deu Jung o nome de complexos.”. (STEIN, 2006, pg.41)

As reações aos diferentes tipos de complexos são as mais diversas. Imaginemos alguém que, como o nosso personagem Neil, vem sendo oprimido ao longo da vida, quantas reações ele pode ter? Alguns explodem de maneira violenta contra quem lhes oprime, ou mesmo reagem de forma agressiva com aqueles que lhe apresentem a mesma atitude dos opressores; outros implodem. 

O novo professor de literatura, Mr. John Keating, interpretado por Robin Williams, chega para a primeira aula da turma de Neil mudando todos os paradigmas a que os meninos estão acostumados. Tira todos da sala de aula e leva ao corredor, onde ficam expostas várias fotos de turmas anteriores a eles. Fala sobre o poema que traz ou sobre “Carpe Diem”.

“Aproveite a rosa enquanto pode. Ela é linda e perfumada. Amanhã murcha e morre.”

Fala sobre a morte. Fala sobre os que já morreram. “Faça a sua vida extraordinária!”, diz o professor.

Na segunda aula segue quebrando os protocolos tradicionais e manda rasgar a introdução do livro, escrita por um PHD, entendendo um poema por sua métrica, rima, importância e coloca o poema numa visão matemática, num gráfico, que vai dizer se o poema é bom ou não. Quando o professor manda rasgar essas páginas de “nonsense” chega um dos professores da escola, que passa pelo corredor e abre a porta para reclamar da bagunça que estão fazendo, achando que o professor não estava na sala.

O professor Keating segue a aula dizendo: “Acadêmicos medindo poesia…isso é uma verdadeira guerra que pode acabar com seus corações! Aqui vocês vão aprender a pensar por vocês mesmos!” E aí começa a falar sobre o que ele diz ser realmente importante na vida: amor, paixão, beleza “…vão querer fazer isso? Ou serão meros repetidores? Você vai contribuir com a humanidade com um verso? Qual será o seu verso?” deixando essa última pergunta como tarefa para a próxima aula.

O professor faz dinâmicas nada ortodoxas, como fazer os alunos subirem em sua mesa, um a um, para terem outras perspectivas da sala de aula e fazer um comparativo com a vida. “Precisamos constantemente olhar para as coisas de um jeito diferente, por outra perspectiva. Assim que você acha que sabe alguma coisa, deve olhá-la de um jeito diferente. Você deve se esforçar para achar a própria voz. E quanto mais demorar em encontrá-la, mais difícil; será.”

Toda a ousadia e heterodoxia do professor é para que os alunos despertem para o chamado do que Jung define como Self. A escola sempre visou nos preparar para o mercado de trabalho, para a vida dos boletos, carro, casa, filhos, etc., mas qual é o nosso real chamado? Será que nascemos apenas para uma vida mecânica, como quem viaja sem admirar a paisagem e apenas pensa no fim dessa viagem?

O conceito de self ou si-mesmo assemelha-se ao conceito do sagrado, ou mesmo o conceito de Deus, pois é um lugar onde não se chega por meio apenas da mente racional, ou da função pensamento; ouvir o próprio chamado, ouvir o Self é uma experiência que transcende o racional e por isso ela é tão evitada. O próprio Jung nos ensina que o homem faz de tudo para se desviar do caminho da individuação, porque deverá encontrar com a própria sombra. E esse encontro não é para os fracos.

Com o passar do tempo, e absorvido pela ideia de buscar o propósito, Neil descobre o que quer da sua vida: o Teatro. Sabe que o pai não vai deixar. Mas está decidido que nada é impossível, que precisa fazer o que quer, e pela primeira vez na vida acredita que sabe o que quer. Os outros alunos do grupo de Neil começam a interiorizar as ideias libertárias: “Lutar mesmo em desigualdade”, “enfrentar inimigos sem temor”; “Viajar em todos os portos”; “Ser governador da vida, não escravo”; “Ser um deus”.

Sabendo que seu pai não vai autorizar, Neil falsifica a assinatura do pai para poder fazer o teste para o teatro, mas seu pai descobre e vai até a escola para ordenar que ele saia da peça, e fazer chantagem emocional; diz que não vai deixar que ele jogue a vida fora, fala dos sacrifícios que ele fez para ter o filho nessa escola e que ele, Neil, não vai desapontá-lo enquanto pai.

Transtornado, Neil procura o professor e diz que o pai o proibiu, e que não entende que tudo o que ele quer é fazer teatro. O professor diz que ele tem que conversar com o pai direito para que ele o entenda.

“- Eles contam comigo.” Diz Neil ao que o professor responde:

“- Prove sua convicção, sua paixão.”

Ele se sente preso numa armadilha. Tem que falar com o pai, mas já o conhecendo e temendo sua reação, Neil finge que se entendeu com seu pai, mas este comparece no dia da apresentação da peça e nem deixa que ele comemore no final nem que receba os cumprimentos. Leva-o logo embora sem deixar que o filho fale com ninguém.

Se sentindo ultrajado, manda todos ficarem longe dele, principalmente o professor Keating. Diz o pai, Mr. Perry, que não vai deixar que ele continue com o teatro e que vão tirá-lo da escola, e mandá-lo para uma escola militar, para depois ele ir para Harvard e ser médico.

A mãe totalmente submissa fica muda. Neil fica desesperado porque são mais dez anos da vida dele. Uma vida inteira, segundo a percepção dele. O pai diz que ele tem oportunidades que ele próprio não teve nem em sonho, e não vai deixar que ele desperdice tudo. Neil vai tentar dizer aos pais como se sente, mas não consegue, e o pai diz que se for sobre atuar, que ele pode esquecer.

O Último Diálogo

PAI: “- Estamos nos esforçando para entender por que você insiste em nos desafiar. Mas seja qual for o motivo, não vamos deixar você arruinar a sua vida. Amanhã vou retirar você desse colégio e colocá-lo no colégio militar. Você vai para Harward e vai ser médico!”.

NEIL: “- São mais dez anos! Pai, isso é uma vida!”

PAI: “- Pare com isso! Não seja tão dramático! Fala como se fosse pra prisão. Você não entende, Neo! Você tem oportunidades que eu nunca sonhei em ter, e não vou deixar desperdiçá-la.”.

NEIL: “- Eu tenho que lhe dizer o que eu sinto!”.

PAI: “- Diga! Vamos! O que é? Se for mais uma história sobre representar, esqueça isso! O que é?!”.

NEIL: “- Nada.”.

PAI: “- Nada. Então vamos dormir.”.

“Porquanto há uma hora certa e também uma maneira certa de agir para cada situação. O sofrimento de um homem, no entanto, pesa muito sobre ele.” (ELECIÁSTES 8:6)

Neil desenhou um cenário e escreveu uma carta de despedida desenhando um ritual mórbido feito em silêncio como se reescrevesse os versos do poema de Walt Whitman por meio de símbolos. Infelizmente, Neil implodiu diante toda a opressão de seu pai e foi devorado pelo complexo do pai que não conseguiu confrontar.

Os complexos são irracionais e tomados de uma energia difícil de ser contida, o ego, que é o responsável pela administração da consciência, raramente tem forças para lidar com tamanha energia psíquica quando um complexo constela. É como um estado de possessão e a explosão (constelação) em uma atitude colérica é raramente evitável. Porém, neste caso específico de nosso herói trágico, o seu complexo poderia ter sido constelado em forma de um enfrentamento com o seu pai opressor, de uma explosão em uma discussão acalorada ou mesmo um embate físico mas, por uma questão provável de personalidade, de temperamento, ele implodiu de maneira silenciosa.

Neil deixou também, como assinatura do seu ato desesperado, a coroa do seu primeiro e único personagem, e o revólver de seu pai como uma caneta mortal cuja tinta era o seu sangue derramado. Uma desistência de prosseguir por um caminho cujos seus passos não queriam trilhar. Um par de sapatos apertados demais para andar em uma estrada sem sentido; seu pai tornou seu caminho uma rua sem saída onde seu chamado foi emudecido.

OH! CAPITÃO, MEU CAPITÃO

(Walt Whitman)

“Oh, Capitão! Meu capitão! Nossa viagem medonha terminou:

O navio tem resistido cada tortura, o prêmio que perseguimos foi ganho;

O porto está próximo, ouço os sinos, o povo todo exulta,

Enquanto seguem com o olhar o firme navio, o barco raivoso e audaz:

Mas ó coração! Coração! Coração!

Oh gotas sangrentas de vermelho,

No tombadilho onde jaz meu capitão,

Caído, frio, morto.

Oh Capitão! Meu capitão! Levanta-te e ouça os sinos;

Levanta-te, para você a bandeira trêmula para você tocam os clarins;

Por você que eles chamam, a massa balançando, de faces ansiosas;

Aqui capitão! Querido pai!

Este braço sob sua cabeça;

É um sonho que no tombadilho,

Você caiu frio e morto.

O meu capitão não responde, seus lábios estão pálidos e silenciosos;

Meu pai não sente meu braço, ele não tem pulsação ou vontade;

O navio está ancorado são e salvo, a sua viagem terminada e completa;

De uma horrível travessia o vitorioso barco vem com o almejado prêmio;

Exulta, ó praias, e anel, oh sinos!

Mas eu com passos desolados,

Ando pelo tombadilho onde jaz meu capitão,

Caído, frio, morto.”

Para trilha sonora, eu deixo a sugestão da música do Raul Seixas chamada Sapato 36, cuja letra trata do mesmo assunto. “Por que cargas d’água você acha que tem o direito de afogar tudo aquilo que eu vivo em meu peito?”.

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