Árvore Genealógica

O Inconsciente Familiar e a Herança Psíquica entre Gerações

Só te conheço de retrato, não te conheço de verdade, mas teu sangue bole em meu sangue e sem saber te vivo em mim (…)

Carlos Drummond de Andrade

Introdução

É misteriosa a relação existente entre descendentes e antepassados e a força do afeto, muitas vezes inconsciente, que une membros de uma mesma família, ainda que de gerações longínquas e que sequer tenham se conhecido pessoalmente.

Pode-se dizer que os antepassados, de certa forma, estão vivos dentro de nós, manifestando a sua energia tenazmente e ditando as tendências daquilo que seremos e encontraremos em nosso destino.

Sentimos de forma empírica tal influência na vida cotidiana. Repetimos traumas, características de personalidade, temperamentos, gestos, padrões de comportamento e até doenças daqueles que nos precederam. A forma de pensarmos, de sentirmos, de enxergarmos e nos posicionarmos perante o mundo, traz parte da história vivida e repetida por nossos pais, avós, bisavós e até por ancestrais mais remotos.

O tema da ancestralidade é amplamente observado em diversas religiões, principalmente as orientais, nas quais o culto aos antepassados é parte importante de sua doutrina.

De igual modo, as ciências médicas se ocupam deste tema ao estudarem a herança genética através do DNA. Atualmente, há uma gama imensa de patologias cuja etiologia é atribuída à hereditariedade ou herança genética.

A psicologia também não despreza a relevância da influência que a ancestralidade exerce sobre o sujeito. Neste contexto, leva-se em consideração a herança de cunho psíquico que é transmitida de geração para geração.

O presente artigo faz uma análise do tema Ancestralidade e da transmissão psíquica transgeracional sob a perspectiva da psicologia analítica, fundada por Carl Gustav Jung, mais precisamente utilizando os conceitos de inconsciente coletivo e arquétipos.

O Inconsciente Coletivo

O psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) foi um dos precursores da ideia sobre a existência de um inconsciente coletivo, cujo conteúdo seria herdado e compartilhado entre todos os indivíduos da espécie humana.

Jung estudou profundamente a estrutura da psique humana em todas as suas dimensões e, por meio de suas observações e pesquisas, chegou à conclusão de que havia uma instância da psique humana, a mais profunda de todas, que era comum em todos os indivíduos da nossa espécie e que seus conteúdos eram transmitidos de geração para geração de modo praticamente idêntico, independente da raça ou localização no tempo e no espaço. Tais conteúdos, ele denominou de Arquétipos. “O conceito de arquétipo, que constitui um correlato indispensável da ideia do inconsciente coletivo, indica a existência de determinadas formas na psique, que estão presentes em todo tempo e em todo lugar.” (Jung, 2019, p. 51).

Apesar da natureza essencialmente atemporal e impessoal do arquétipo, a forma de vivenciá-lo varia de indivíduo para indivíduo. “O arquétipo representa essencialmente um conteúdo inconsciente, o qual se modifica através de sua conscientização e percepção, assumindo matizes que variam de acordo com a consciência individual na qual se manifesta.” (Jung, 2019, p. 14).

O inconsciente coletivo é a parte mais profunda da psique humana e não tem sua origem em experiências ou aquisições pessoais, sendo inato. Diferencia-se do inconsciente pessoal, exatamente por sua origem não decorrer de experiências vivenciadas pelo próprio indivíduo, mas sim por ser um substrato psíquico herdado e compartilhado por todos os seres humanos desde o início dos tempos.

Inconsciente Coletivo Familiar

Ao observarmos uma família, notamos que, em grande parte dos casos, há uma espécie de modus vivendi que parece nortear a conduta de seus membros. Percebem-se semelhanças no modo de pensar e de reagir em determinadas circunstâncias ou repetições de uma mesma doença, que acomete indivíduos de várias gerações.

Jung observou isso em sua própria família, conforme descreve:

Enquanto trabalhava em minha árvore genealógica, compreendi a estranha comunhão de destinos que me ligava aos meus antepassados. Tenho a forte impressão de estar sob a influência de coisas e problemas que foram deixados incompletos e sem resposta por parte de meus pais, de meus avós e de outros antepassados. Muitas vezes parece haver numa família um carma impessoal que se transmite dos pais aos filhos. (Jung, 1963, p. 208).

Dessa forma, fica evidente que Jung reconhecia a existência de um legado transgeracional, em que caberia a ele, como descendente, a missão de realizar algo inacabado, solucionar problemas e oferecer as respostas que seus antepassados não foram capazes de fazer.

Mas como se daria essa relação existente entre nós e os antepassados pelo ponto de vista dos arquétipos?

Jung falava sobre uma espécie de estratificação do inconsciente em camadas sobrepostas. Sendo a mais profunda de todas, o que ele chamou de “a própria vida”, que diria respeito a todas as criaturas vivas. Ascendendo-se sucessivamente às camadas mais superficiais, chegar-se-ia àquelas mais próximas do indivíduo, como o clã e a família imediata (Hannah, 2003).

Em OC 7, pg 235 Jung diz: “na medida em que há diferenças correspondentes a raça, tribo e família, também há uma psique coletiva e, além disso, uma psique coletiva universal”.

Dessa forma, podemos entender que, além da camada mais profunda da psique, o inconsciente coletivo universal, à medida que se vai emergindo para a superfície, encontrar-se-á com uma sucessão de camadas ascendentes que passarão pelo que se poderia chamar de inconsciente coletivo étnico, do país, da família, até chegar ao inconsciente pessoal do próprio sujeito.

Tal fato é facilmente observado na prática. Um cidadão suíço pensa e age de maneira diferente de um brasileiro; um paulistano apresenta diferenças marcantes de comportamentos em relação ao carioca. De igual modo, em âmbito familiar, também se encontram essas diferenças. Cada família tem um modo próprio de ser que é, em certa medida, compartilhado por seus integrantes.

De acordo com essa perspectiva, compreendemos que já nascemos com predisposições psíquicas herdadas, sendo estas reforçadas pelo ambiente sociocultural e familiar, com seus interditos, tabus, valores, expectativas, etc.

Em relação à influência exercida pelo ambiente familiar, Jung salienta que, mais do que as palavras, as ações praticadas pelos pais e a maneira com que conduzem as suas próprias vidas exercem maior impacto sobre o inconsciente dos filhos. Contudo, não raro, apresentam-se problemáticas cujas causas ou origens parecem transcender a abrangência da família nuclear. Em face disso, ponderamos que a responsabilidade direta dos pais se estende até o limite onde se inicia a influência da herança transgeracional, visto que não podemos nos esquecer de que os pais são os filhos dos avós e estes já trazem conteúdos herdados de gerações anteriores.

Isto é, os filhos recebem, obviamente, herança biológica e psíquica direta dos pais, mas também de toda a sua ancestralidade – um incontável número de antepassados que contribuíram para a formação da individualidade da criança.

Essa herança psíquica afeta grandemente a vida individual do sujeito, pois o impele a repetir, de maneira inconsciente, padrões racionais e comportamentais familiares, os quais muitas vezes, limitam e dificultam seu desenvolvimento e amadurecimento psíquico.

A conscientização da existência de uma herança ancestral parece jogar luz sobre essa problemática, pois através dela, o ser humano agrega recursos que lhe conferem maiores condições de elaborar as questões da sua subjetividade.

Além disso, Jung afirma que os efeitos desse legado variam de indivíduo para indivíduo, isto é, a herança existe para todos, mas cada um realiza a sua própria forma de ser herdeiro. “Existem causas certamente, mas a alma não é também nenhum mecanismo que deva reagir necessária e regularmente a cada estímulo específico. […] É a disposição específica de cada indivíduo que desempenha aqui o papel quase decisivo” (Jung, 2018, p. 42).

Para fins terapêuticos, partindo da ideia de uma natureza genuinamente ambivalente do arquétipo, ele por si só pode se tornar curativo, pois, como lembra Jacobi (2016), o arquétipo reúne em si todas as possibilidades do que já foi e do que ainda virá a ser.

Compreendendo por esse ângulo, aquilo que aparecia como maldição ou castigo, pode tomar a forma de benção, e o que parecia um carma inescapável, se transformar em oportunidade de ampliação de consciência por meio da integração de conteúdos psíquicos, outrora reprimidos ou não experienciados conscientemente.

Tais conteúdos, por serem partes dissociadas da psique do próprio sujeito, reclamavam sua legitimação aparecendo em sua vida de forma autônoma. Uma vez elaborados e integrados, a energia psíquica neles contida é vertida para a consciência proporcionando a ampliação da mesma e, por conseguinte, um ganho de autonomia do indivíduo em relação à sua própria vida.

É exatamente na diferenciação do sujeito em relação ao inconsciente coletivo que reside o significado do processo de individuação. Ao mesmo tempo, agora conscientes, esses conteúdos não carecem mais serem projetados sobre o objeto, que no caso de uma família pode ser o filho ou filha. Assim, a geração futura é, por assim dizer, absolvida dessa sequência de projeções inconscientes e ganha, por sua vez, liberdade para traçar seu próprio destino e vivenciar sua própria história de maneira mais independente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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