22

O que nos torna humanos? Resgatando o sentido de humanidade durante um atendimento em hospital geral

Em meados do ano de 2005 eu era uma psicóloga recém formada, especializada em um renomado complexo hospitalar. Naquela situação pude conviver com diversos profissionais de variados segmentos da saúde, bem como com colegas psicólogos e pacientes do hospital geral. Com estes compartilhei preciosos momentos, em que foi possível experienciar uma gama enorme de diferenças que versavam sobre classes sociais, culturais e socioeconômicas. Não é exagero dizer que o hospital foi uma escola para vida. Neste intento tecerei meus apontamentos.

A convite de um querido colega da graduação, foi-me colocada a proposta de desenvolver um manuscrito que trouxesse reflexões sobre minha experiência profissional. Para retratar esta face de minha vida, escolhi relatar minha primeira experiência profissional como fonte de aprendizado técnico, científico porém, darei ênfase a uma perspectiva que vai além destes lugares. Para tanto, no foco de meu relato, tratarei o campo da inserção profissional do psicólogo iniciante como passível de desenvolvimento de habilidades empáticas e do surgimento de uma experiência que nomeio resgate do sentido de humanidade, algo relevante para o início de minha práxis, que resultou em ganhos pessoais que ressoam e se mantém vivos até a atualidade.

Aos 24 anos eu fazia parte de uma leva de jovens recém formados na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Reduto estudantil da classe média alta paulistana, um lugar de muitos contrastes. Ora viam-se alunos trazidos por motoristas particulares ou ônibus fretados vindos de condomínios de luxo, ora estudantes que chegavam na sala de aula com grande atraso, pois uma das muitas conduções que usavam para locomoverem-se tinham sofrido algum acometimento.

Espaço de diferenças socioeconômicas pronunciadas, era neste lugar que eu teceria minhas primeiras observações e experimentações do mundo “adulto”. Ali eu era socializada e entendia que se delinearia a profissional que almejava ser.

Foi, entretanto, na especialização Latu Sensu em Psicologia Hospitalar que pude de fato iniciar as mencionadas observações e experienciar, na prática, a profissional que eu buscava ser.

Em um complexo hospitalar que envolvia todas as especialidades médicas, para todas as camadas da população, em especial, as usuárias do SUS, deparei-me com um ambiente multifacetado, com uma gama de atendimentos de saúde que envolviam todas as esferas de cuidado: atenção primária, secundária e terciária-, centros cirúrgicos de alta complexidade, com realização de cirurgias de transplantes de órgãos, centro de especialidades para problemas neurológicos, pronto socorro, UTI etc. Fazia ainda parte do complexo hospitalar a Faculdade de Medicina e o Setor de Psicologia, onde eu estava alocada.

Neste setor os atendimentos se dividiam entre consultas agendadas com pacientes, adultos e crianças, em acompanhamento ou psicoterapia breve, atendimentos em interconsultas junto a equipes interdisciplinares, como as dos setores de traumatologia/ortopedia, reabilitação, transplante renal, transplante de fígado, câncer de cabeça e pescoço, UTI, cirurgias de alta complexidade, entre outros. Neste formato de atendimentos, cada psicólogo era designado a um grupo das especialidades mencionadas e seu trabalho dava-se em conjunto com outros profissionais das equipes em atuação multiprofissional.

Era papel do psicólogo trabalhar tanto as questões entre as equipes (médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, nutricionistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais entre outros), como suas relações com os pacientes e vice-versa.

Nossa atuação se dava junto aos pacientes ligados às especialidades em questão, tanto durante sua internação nas enfermarias, como em consultas semanais, ou mensais, durante seus tratamentos, acompanhamento de cirurgias, como o pré e pós transplantes. A atuação do psicólogo tratava-se de uma ponte entre paciente e equipe médica, mas também, sobretudo, do “olho no olho” paciente-psicólogo, momento ímpar em que se constituía um espaço individualizado de acolhimento e escuta, muitas vezes inexistente em um grande hospital, por questões próprias da rotina e rotatividade de profissionais na demanda de cuidados e atenção ao alto número de pacientes.

Outra modalidade de atendimento que realizávamos era apelidado por “psicólogo apaga incêndios”. Atividade nomeada com humor para uma situação séria, tratava pedidos de apoio de diferentes profissionais das equipes que enfrentavam alguma dificuldade pontual com um paciente e precisavam de rápido auxílio de um profissional psicólogo de plantão. Devido ao grande número de especialidades no hospital geral, o baixo número de profissionais de psicologia atuantes não possibilitava que cada equipe tivesse um profissional à sua disposição todos os dias da semana, em todos os horários.

Em uma atuação da “psicóloga apagadora de incêndios” fui solicitada no dia de meu plantão a auxiliar uma equipe médica e dE enfermagem no trato com uma paciente considerada “difícil”. No pedido recebido os dizeres não eram claros: “paciente difícil, pouco colaborativa, não fala português”. O que pensa um psicólogo bombeiro ante um escrito como esse?

Não era incomum que recebêssemos pedidos enigmáticos, então, em geral, devido a brevidade de dados e informações, o primeiro passo antes de adentrarmos a enfermaria onde o paciente estava internado era entrar em contato com alguém da equipe para obter informações, compreender o histórico e evolução da internação, problemas orgânicos e talvez emocionais, decorrentes da situação de hospitalização. Outro passo, também era fazer a leitura do prontuário médico e acompanhar a evolução dos dias de internação que é feita por todos os profissionais da equipe multidisciplinar que entram em contato com o paciente, bem como são registradas informações sobre o tratamento, uso de medicamentos e a “colaboração” do enfermo. A colaboração era tema central de pedidos de interconsultas ou reclamações por parte das equipes.

Naquela sexta-feira pela manhã, véspera de feriado, havia um movimento inusual no hospital. Não encontrei ninguém da equipe para conversar sobre o caso que deveria atender, nem mesmo o médico responsável pelo pedido. Também não encontrei o prontuário da paciente e apenas após meu encontro pessoalmente com esta, soube que não havia prontuário em seu nome, por não ser ela a paciente.

Cheguei na enfermaria de adultos e não encontrei a pessoa que procurava. Por se tratar de uma mulher e pela informação “não fala português”, minha estratégia foi procurar por uma estrangeira, perguntando para auxiliares de enfermagem, que em geral estão sempre atentas ao vai e vem e à localização das pessoas. Quando finalmente, após uso desta estratégia, cheguei ao local correto, me surpreendi. A pessoa que eu procurava não era uma paciente e também não se encontrava na enfermaria de adultos, mas na UTI pediátrica.

Logo na minha entrada, fui identificada pelos escritos em meu jaleco como psicóloga. Prontamente as profissionais que se encontravam no quarto me olharam fixamente e sem proferirem palavras, apontaram a mulher com quem eu deveria falar e se retiraram, em silêncio cortante.

Visualizei, então, uma mulher sentada ao lado de um bebê, de aparentes 5 meses de idade. Ela tinha traços indígenas, cabelos muito longos e pretos. Vestia trajes inapropriados para a época do ano; fazia frio e ela usava roupas de verão e calçava chinelos. Era possível observar a sujeira escura em seus pés e notar o odor de seu corpo, que me dava pistas sobre o tempo que ela estava no hospital, ou mesmo, sobre sua saída em sobressalto para levar o filho à emergência.

Seu olhar se mantinha fixo a criança, suas mãos, colocadas sobre ela. A mulher não me olhava, em nenhum momento. Também não buscava contato. Nada parecia lhe importar e nada mudava sua expressão apática, seu olhar vazio e sua postura corporal resignada. Ela, sentada, curvada, com as mãos e o olhar em seu bebê. O bebê, pálido e frio, era um corpo sem vida.

Foi um grande desafio iniciar alguma comunicação. A mãe, visualmente em choque, parecia não compreender o que acontecia ao seu redor. Após algumas tentativas de abordagem, munida da informação sobre o desconhecimento do idioma, tentei lhe abordar em espanhol. Logo um diálogo aconteceu, assim como muitas lágrimas.

O fato de alguém buscar conversar em seu idioma foi a ferramenta para a abertura, interlocução e acolhimento que tanto necessitava. Inicialmente, seu discurso foi muito reduzido. A mulher me dizia que as pessoas do hospital queriam que ela fosse para casa e deixasse seu bebê, mas ela não partiria deixando seu filho para trás. Seu pedido, consternado, era de que eu a ajudasse a levá-lo com ela. Este pedido, contudo, não veio sozinho. Ela não tinha mais casa. Contou-me brevemente que o marido não a perdoaria por ter sido descuidada com o filho, ao ponto de este ter sido internado. Ele a culpava e ela o temia, não tendo mais para onde retornar.

Minha interlocutora tinha, então, dois problemas: não queria deixar o hospital sem levar seu bebê e não tinha mais como voltar para casa. Vivia a negação da morte de seu filho e o medo de seu marido, além de provável sentimento de culpa pelo ocorrido e a grande incerteza sobre o prosseguimento de sua vida em país estrangeiro. Não tinha possibilidades financeiras de se manter, sequer de pensar em retornar para a Bolívia, sua terra natal. Muitas demandas, muita intensidade e muitos desafios para confrontar… Naquele momento eu me tornava a única pessoa que entendia sua língua materna e serviria de ponte para atendimento de seu apelo. Eu, recém formada, estaria pronta para uma demanda desta amplitude?

A narradora era costureira em uma confecção na região central da cidade de São Paulo. Veio da Bolívia, como muitos de seus conterrâneos, em busca de trabalho “certo” em uma confecção com garantias de moradia, alimentação e a certeza de um convívio “familiar”, uma vez que o patrão também era boliviano.

A jovem de 19 anos recém completados, técnica em enfermagem, não tinha emprego em seu país e o sonho de ascender e se casar com o então noivo foram os motivos para emigrar. Seu noivo tinha feito contato com o empregador no Brasil e com moradia e trabalho certos o casal poderia iniciar sua vida morando e trabalhando juntos. Parecia estar tudo certo, ainda que a família fosse contra o seu relacionamento e a emigração.

Mesmo vivendo há mais de um ano em São Paulo, pouco viu da cidade. Vivia com mais cinco pessoas em dois cômodos sem janelas, lugar em que também funcionava a confecção. A rotina como costureira era puxada. Os ganhos eram por peça de roupa pronta, não havia tempo a perder. Antes de outros planos, era necessário sanar dívidas com o empregador. Partiram dele a passagem da Bolívia para o Brasil e o aluguel da moradia, que não era gratuita, conforme prometido.

Nossa narradora engravidou pouco tempo depois que chegou no Brasil e não teve tempo e condições para fazer o pré-natal. Quando seu bebê nasceu, não teve licença maternidade ou algum tipo de resguardo. Seguiu vivendo nos dois cômodos, com o marido e outros funcionários da confecção que seguiu funcionando, a todo vapor. Neste cenário, cinco meses depois, seu filho veio a óbito, quando ela o deixou dormindo no berço após a mamadeira que lhe deu no breve intervalo de sua máquina de costura. Ele ficou dormindo no berço próximo as máquinas, cujo ruído constante de seu funcionamento não possibilitou qualquer suspeita de que estivesse sufocando. Nossa interlocutora não soube dizer quanto tempo o filho permaneceu nesta situação até que ela se desse conta.

Entre todos os sentimentos, foram ressaltados o medo da polícia, da extradição, do futuro, além do já mencionado receio da reação do marido, quem ainda não tinha reencontrado desde a internação.

Enquanto psicóloga não me cabia julgar ou mesmo lançar mão de técnicas de entrevista ou abordagens psicoterápicas. Era necessária a construção de um espaço de acolhimento da dor e compreensão que perpassasse a queixa inicial da equipe solicitante, sobre a paciente considerada “difícil”. A dificuldade de seu caso específico, era pelo fato de não querer (poder) ir embora e se defrontar com o choque pelo luto e pelo que lhe aguardava fora dos muros do hospital. Cabia ainda a compreensão de que além da evitação destes confrontos, nossa depoente era alimentada e tinha um teto seguro enquanto o seu bebê estava internado. O que aconteceria depois de sua partida? Não sabíamos.

Era necessária toda a minha empatia e condução cautelosa da situação, sobre como abarcar o caso de modo satisfatório para a paciente e ao mesmo tempo, organizar uma estratégia de ação da equipe multidisciplinar que, nas entrelinhas, desejava ter “o problema” resolvido, para que o leito fosse liberado o quanto antes.

Todas estas demandas caracterizaram um atendimento excepcional, por sua complexidade e especificidade, por tratar-se não somente de um problema de saúde, mas social e intercultural. Não poderíamos como equipe simplesmente encaminhar a paciente para casa sem lhe darmos contornos para o luto e prestarmos meios de proteção quanto à provável situação de violência doméstica que viveria. Além disso, era necessário não a julgar, mas buscar compreender como se dão suas relações familiares desde a Bolívia, as interações em seu meio de trabalho, assim como suas questões junto ao contexto migratório e seus desdobramentos. Sua proteção estava em primeiro lugar, depois viriam as providências para abarcarmos o luto. Como manejar tal configuração, dada a urgência da liberação do leito? Mais uma tarefa dentre as mencionadas.

As nuances deste encontro revelam uma faceta do atendimento psicológico institucional. Este caso envolveu uma questão de gênero, uma questão migratória, de moradia, trabalho análogo à escravidão, questões interculturais e de inserção social. Deste modo, concluo que a humanidade e a empatia como pontos centrais do atendimento complementam de modo fundamental os conhecimentos técnico-científicos do psicólogo. Embora não seja o enfoque principal de sua grade curricular, deve ser algo que perpasse saberes e campos de atuação. O entendimento do profissional psicólogo sobre o sujeito deve transcender aparências, constituindo-se na relação autêntica, sua potência.

 

 

Comente