prevenção ao suicídeio

Prevenção ao suicídio, Posvenção e Acolhimento à vida

Em um dos meus cursos, uma aluna perguntou: “Professora, como a gente lida com pessoas que tentam se matar para chamar atenção?” Ao que respondi: “Que bom que a pessoa quer chamar atenção, pois é sinal que ela é capaz de se comunicar. Lembremos que aquilo que é colocado em fala talvez não se transforme em ato. Então, mesmo que a pessoa queira chamar atenção, precisamos compreender a autodestruição como um pedido de socorro e ato de comunicação. Endosso que ser capaz de chamar atenção é possibilidade vindoura para que a pessoa possa se resgatar, caso ela mesma se permitir. Se ela não se ferisse, ela já estaria morta”.

Desde meu primeiro livro Suicídio e Gestalt-terapia (2005/2019), que recebeu três recusas editoriais para publicá-lo com a alegação de que o “assunto não era interesse para a sociedade brasileira”, enfrento o preconceito ao abordar a temática. Tento desmistificar as ideias a respeito de não falarmos sobre o suicídio, endossando que o problema não é o falar, mas sim o como falar, e realizo trabalho psicoeducativo sobre os pensamentos prejudiciais que ferem mais a pessoa que se encontra em intenso sofrimento existencial.

Sou filha de uma pessoa que tentou o suicídio diversas vezes e, por esse motivo, a marca do desrespeito em relação ao sofrimento existencial foi motivação necessária para que eu direcionasse minha profissão no caminho acadêmico com o intuito de incentivar cursos de graduação e de pós-graduação e, sobretudo, instituições formadoras de profissionais da saúde a trazerem à tona este assunto que se tornou problema de saúde pública e preocupação extenuante daquele que cuida de um ser humano. Nessa peregrinação, tenho buscado estratégias para ampliar os fatores de proteção para aquele que se encontra em intenso sofrimento existencial. Para tanto, considero importante e necessário lançar mão do amor e da generosidade. No entanto, no caminho da Suicidologia, não basta apenas ter “um coração bom” e disponibilidade, pois devemos nos habilitar para lidar com o sofrimento humano.

A educação destinada à prevenção do suicídio, posvenção e práticas integrativas que possam favorecer os cuidados e intervenções do bem-estar é o foco principal de meu trabalho. São, portanto, minhas prioridades enquanto suicidologista propor o constante desenvolvimento da compreensão dos processos autodestrutivos e do processo de luto por suicídio e promover ações para a valorização e acolhimento da vida.

Percorri longa jornada de investimento acadêmico que me possibilita assumir a coordenação da Pós-graduação em Suicidologia: Prevenção e Posvenção, Processos Autodestrutivos e Luto na Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). Nessa direção, preocupo-me em trazer uma discussão ampliada e aprofundada sobre a temática por acreditar que a informação e a produção de conhecimento são práticas de prevenção.

No Brasil, infelizmente, é inexistente um programa de políticas públicas que subsidie as possibilidades de acolhimento, cuidado e encaminhamento de questões vinculadas aos processos autodestrutivos, mais especificamente, comportamento suicida e autolesão não-suicida. Importante também é divulgar o Centro de Valorização da Vida  ou 188 que realiza apoio emocional.

Os processos autodestrutivos são aprendizagem disfuncionais. Sendo assim, é importante questionar sobre o caráter disfuncional que faz o ser humano direcionar contra si a energia agressiva. E, como escrevi no estudo Processos autodestrutivos: do luto do ‘antigo self’ à reinvenção criativa do self  (Fukumitsu, 2020a, p.57):

“Se o sofrimento diz respeito à condição inerente de ser humano, penso que cabe a nós modificar aquilo que não está em comum acordo com nosso equilíbrio. Nesse sentido, vale a questão: Seria possível promover ações destinadas às pessoas com comportamentos autodestrutivos?”

Acredito que sim, desde que nos demos chances de construir relações nutritivas que sustentem o encorajamento para continuar, para lidar com os grandes conflitos

Acompanho muitas pessoas cujos vínculos são rompidos em virtude de decepções e frustrações e que se afundam na solidão. Para estas pessoas,  tento me fazer instrumento de valorização da vida; isso é tarefa árdua e que exige comprometimento com atitudes que visem aprender e ensinar potencialidades diferentes para que o ser humano possa se fortalecer apesar de seu sofrimento. Quando se está sozinho, para onde que vai todo o sofrimento? Para as pessoas que acompanho, a solidão toma a direção da autodestruição. Por isso, a trilha do retorno a si e saída deste estado de solidão pode ser por meio da confirmação do sofrimento e do questionamento de “onde está doendo a ponto de querer se matar?” E “como é que eu posso te ajudar?”. Essas duas questões favorecem uma comunicação que possa permitir a possibilidade de a pessoa se fazer entendida e vista.

Muitas vezes, a pessoa que tentou falar e não se sentiu aceita recusa insistir em ser acolhida e furta de si seu lugar de pertencimento em relação ao outro e em relação a si mesmo. A comunicação é interrompida, e se foi interrompida existirá certa descrença de que ela será capaz de se restaurar em seu sofrimento. Nesse sentido, é importante estimular ampliação da comunicação e construir uma rede de apoio e de suporte para favorecer o sentimento de pertencimento. Do heterossuporte para o autossuporte, o trabalho com pessoas que apresentam autodestrutividade deve rumar para a descoberta de momentos permeados por atitudes de compaixão e de encorajamento, para angariar forças para sobrepujar as dificuldades. Nessa direção, o trabalho de ressignificações das percepções e da maneira como o ser humano se permite ser maltratado e se maltratar pode ser um dos focos de nossa atenção.

Respeito, acolhimento e escuta formam a tríade necessária para o trabalho com o comportamento autodestrutivo. Em oposição aos sentimentos supracitados, considero que as marcas que aumentam as feridas e que dilaceram a alma humana são o desrespeito, a indiferença e a depreciação, sentimentos que avassalam um ser humano, conduzindo-o à autodestruição.

Em estudo anterior (Fukumitsu, 2020b, p.37) teci considerações sobre suicídio e seus impactos:

“O suicídio, portanto, pode ser visto como uma morte escancarada e íntima, pois se a morte escancarada é uma morte violenta que acontece nas ruas, no cotidiano, o suicídio é uma morte violenta nas vielas íntimas e, por esse motivo, instala a experiência de caos e uma intensa situação inacabada por configurar a urgência e emergência naquele que a vivencia.”

O acolhimento é a ação que constantemente tenho investido nas áreas da prevenção dos processos autodestrutivos e posvenção. Quando a dor é ininterrupta, as pausas de acolhimento são necessárias para dar fôlego e respiro nas palavras que atormentam a alma. Shneidman (1993, p. 152, tradução nossa) ensina que “o terapeuta pode focar em sentimentos, principalmente angustiantes como culpa, vergonha, medo, raiva, expectativas frustradas, amor não correspondido, desespero e solidão”. Sendo assim, há de se pensar que quando somos bem tratados e nos tratamos bem, a inospitalidade e o estranhamento podem se dissolver, não como um passe de mágica, mas sim como processo atento que integra a habilidade para dispor e o dispor da habilidade.

Brincando com as palavras. Habilidade para dispor requer acessar o nosso lado “mais humano”, que implica em dispor da habilidade de ofertar atos de amor para suportar a dor. Habilidade para dispor é a permissão de falar “sofro, mas não tenho a dimensão do tamanho do sofrimento do outro e, por esse motivo, posso me dedicar para conhecer o sofrimento do outro”.

“Habilidade para dispor” pressupõe um grau de dedicação, ou, brincando com as palavras, dedicar a ação para alguém. É desvelo, postura e conduta. Concomitantemente, dispor de habilidades na lida do manejo dos processos autodestrutivos é se dotar de conhecimento que envolve a articulação preciosa entre práxis e teoria. Na aquisição de conhecimentos sobre a autodestruição, levanto sempre uma questão: “devemos ter doação incondicional no trabalho da prevenção aos processos autodestrutivos?”

Minha resposta é negativa, sobretudo por termos limites. Lembrando que a ética tem relação direta com nossas convicções, acrescento que nossos limites não podem falar mais baixo que nossas convicções e metas.

Adoro a aproximação da máscara de oxigênio tão ensinada quando viajávamos de avião, em épocas diferentes da crise pandêmica. Há sempre no início do voo a recordação de que no caso de despressurização da máquina, ao cair a máscara, se você está com um bebê, uma criança ou com uma pessoa idosa, a máscara deverá ser colocada primeiramente em você para depois colocá-la na pessoa considerada mais frágil. Com pessoas em intensa vulnerabilidade também devemos utilizar esta analogia.

Acrescento uma história que acredito ser pungente para esta discussão. É uma história de dois amigos. Um amigo estava super doente. O outro amigo não estava doente, mas foi para acompanhá-lo. Este amigo que foi para acompanhá-lo ficou vigiando e olhando este amigo doente a madrugada inteira. Ficou sem comer, sem descansar, sem dormir. Na manhã seguinte, o que estava doente acordou muito bem. O outro morreu.

Fazemos o que é possível e no caminho da Suicidologia não podemos lidar com aquilo que é impossível. Trabalhamos com a potência e não de forma onipotente nem onipresente, tampouco impotente. Ficamos na potência. A potência mora na possibilidade de estabelecer vínculos que recebam a alcunha de ser pares de proteção. E na nossa potência e dentro das nossas possibilidades, acolhemos a vida, valorizamos a existência e poderemos, juntos, percorrer veredas estreitas e acompanhar aqueles em sofrimento existencial.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Fukumitsu, K.O. (2020a). Processos autodestrutivos: do luto do ‘antigo self’ à reinvenção criativa do self. In: FRAZÃO, L. M.; FUKUMITSU, K.O. (Orgs.). Enfrentando crises e fechando Gestalten. São Paulo: Summus.
  2. Fukumitsu, K. O (2020b). Suicídio e Luto: história de filhos sobreviventes. 2 ed. São Paulo: Editora Lobo.
  3. Shneidman, E. (1993). Suicide as Psychache: a clinical approach to self-destructive behavior. London: Jason Aronson.

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